Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

"CADA LIVRO QUE ESCREVO É UM ENIGMA PARA MIM" – ENTREVISTA A PAUL AUSTER

O que o atraiu para a história de Mr. Vertigo?

Isso é um grande mistério para mim. Não sei de onde surgiu. Durante anos carreguei comigo uma história nunca muito bem definida sobre um mestre e o seu discípulo, e que nem era verdadeiramente uma história mas uma situação. Quando me sentei a escrevê-la, pensei que ela teria cerca de vinte páginas. Pelos vistos, estava enganado.
 
Disse uma vez a um entrevistador: “emoções muito fortes, até mesmo traumas, geram as minhas histórias.” Foi o caso de Mr. Vertigo?
Mais uma vez, cada livro que escrevo é como um enigma para mim. Nunca sei o que estou a fazer ou por que o faço. Há apenas a compulsão para o fazer, a necessidade imperiosa de passar a história ao papel. Às vezes, mais tarde, depois de o livro estar escrito, tenho vislumbres que me levam a compreender a sua origem, pequenas pistas. Com Mr. Vertigo, penso que teve a ver com a ideia de cair de lugares altos. Digo isto da mesma forma que um antropologista o diria, baseado unicamente na observação e no que vejo com os meus próprios olhos. Consigo lembrar-me de vários livros que escrevi em que as pessoas caem. No País das Últimas Coisas, Anne Blume atira-se de uma janela no último andar de um prédio de modo a salvar--se; ela não morre, mas isso altera o curso da sua vida. Em Palácio da Lua, o pai obeso de Fogg cai para dentro de uma sepultura aberta e parte a coluna. Em Leviathan, gira tudo à volta de um homem a cair de umas escadas de emergência. Penso que tudo isto (mas como é que eu posso verdadeiramente saber?) pode estar relacionado com algo que aconteceu ao meu pai quando eu era criança. Ele estava a trabalhar num telhado, escorregou e caiu. Se não fosse um estendal a aparar a queda ele teria provavelmente morrido. Apesar de não ter presenciado isso, carreguei essa imagem na minha mente durante toda a infância: o meu pai a voar. Talvez seja essa a fonte, o que está no cerne da minha estranha obsessão.
 
Uma das coisas de que mais gosto no livro é a combinação do espiritual com o mundano. Ambos estão presentes no personagem do Mestre Yehudi: às vezes ele soa como um sacerdote zen e outras vezes como um bufarinheiro.
Ele é um personagem bastante complexo. Por um lado, é um vigarista, um charlatão, apenas interessado em fazer rios de dinheiro – tal como toda a gente na América. Por outro lado, ele tem uma faceta profundamente espiritual. Está interessado nas verdades espirituais. Ao desafiar as leis da Natureza, como se propõe a fazer com Walt, ele coloca-se numa situação bastante difícil perante Deus, o Universo e o Homem. E o Mestre Yehudi reflecte muito sobre estas coisas. Leva-as muito a sério.
 
 
De onde vem a propensão dele para o espiritual?
É difícil de dizer. Ele estava lá, completamente formado na minha cabeça, antes ainda de eu começar a escrever. Mais tarde, apercebi- -me de que a sua biografia era bastante semelhante à do Houdini, que também era um judeu húngaro proveniente de uma família de rabis. O seu nome verdadeiro era Erich Weiss. O contraste entre o que podemos chamar de mítico e o quotidiano, como combinam e vivem lado a lado no mesmo mundo, é, em parte, sobre o que este livro trata. É o que lhe determina o tom. Recentemente, deparei-me com uma entrevista com Peter Brook, o encenador, que teve um grande impacto em mim. Ele conseguiu articular algo sobre o qual já reflectia há muitos anos. Ele disse – e não sei se isto é uma citação exacta, mas é uma ideia geral – que o que ele se esforçava por alcançar na sua obra teatral era a proximidade com o quotidiano e a distância com o mito. Ele afirmou: “Não podemos ser tocados sem o quotidiano, e não podemos ficar maravilhados sem o mito.” É uma declaração muito profunda, uma afirmação que provém de anos de reflexão sobre o que se está a fazer. Estas palavras tocaram-me profundamente e, em certo sentido, penso que articulam com perfeição aquilo que pretendi atingir com Mr. Vertigo.
 
Walt usa muito a linguagem e o imaginário religiosos. De onde é que isso provém?
O que me interessa acerca da linguagem americana, a linguagem do povo, é que ela é muito crua, muito viva, muito inventiva. Mas, ao mesmo tempo, tem uma componente bíblica, especialmente da Bíblia na versão do rei Jaime I, que é, sem dúvida, o livro mais lido na história da América, bem como o livro mais escutado. Para muita gente, especialmente para as primeiras gerações, era esta a literatura que conheciam. Por isso, há uma espantosa combinação no vernáculo americano da linguagem elevada e da linguagem comum. O discurso de Walt é o exemplo perfeito disso.
 
Não estará Walt à procura de uma espécie de verdade?
Não mais do que qualquer pessoa. Não será que estamos todos à procura da verdade? Algo em que podemos acreditar, algo sólido em que possamos nos apoiar? Podemos ler este livro de várias maneiras, e não acho que uma leitura seja mais válida do que outra. Todas elas coexistem. Podemos encará-lo como uma parábola da infância, mas também o podemos ver como um pedaço da história da América. Podemos vê-lo como um romance sobre o público e o privado, sobre o dinheiro, sobre o showbiz, sobre o sucesso e o fracasso. Eu seria a última pessoa a tentar impor uma interpretação ao leitor.
 
Por que é que escreveu a história na primeira pessoa?
Mais uma pergunta para a qual não tenho resposta. Foi simplesmente como ela me surgiu, o homem idoso a olhar para trás. Podemos dizer que uma narração na primeira pessoa é menos fiável do que uma história contada na terceira pessoa. Um narrador na terceira pessoa é omnisciente; confiamos na sua voz, acreditamos nele. Um narrador na primeira pessoa é mais complexo, porque temos de ter em consideração quem está a dizer o quê e porquê. E se o narrador estiver a mentir de propósito? Nunca podemos descartar essa possibilidade.
 
É muito dramático para Walt ter de escolher entre os seus testículos e o estrelato. Por que é que formulou a história dessa maneira?
Não me conseguia ocorrer um conflito mais dramático.
 
Ao explicar por que razão Mrs. Witherspoon não se vai juntar a eles na digressão, o Mestre Yehudi diz: “Se um tipo ficar quieto à espera, há uma hipótese de que a coisa que deseja acabe por acontecer.” Acha que a sua fixação pelo amor romântico está tão desajustada da realidade como Walt defende?
Tal como para muitas das coisas que desejamos ardentemente, a paciência é uma grande virtude. Às vezes, coisas como o amor vêm mesmo ter connosco. Mas o Mestre Yehudi comete erro após erro em relação a Mrs. Witherspoon. Ele não joga bem as suas cartas.
 
Mrs. Witherspoon é uma mulher muito enérgica. Acha que o sexo é encarado da mesma forma pelos homens e pelas mulheres?
Não acho que ela tenha uma abordagem diferente à sua sexualidade da de Walt e do Mestre Yehudi. Mrs. Witherspoon é o meu género de mulher, e arrisco-me a dizer que a sua visão do sexo é bastante menos pouco usual do que as pessoas pensam. Para lhe dar uma ideia de como os meus livros são escritos, tenho de confessar que quando comecei a escrever este livro Mrs. Witherspoon não existia. Ela apareceu do nada. Começou a fazer aparições enquanto ia escrevendo, e tornou-se cada vez mais importante à medida que o livro ia avançando. Na verdade, e isso ocorreu-me agora pela primeira vez, se há algum livro relacionado com Mr. Vertigo é o Pinóquio, um livro sobre o qual já reflecti muito ao longo dos anos. De uma forma bizarra, podemos dizer que Walt é o Pinóquio, o Mestre Yehudi é o Mestre Gepetto e que Mrs. Witherspoon é a Fada Azul.
 
Walt, o Rapaz Prodígio, afirma: “Temos de nos pôr constantemente à prova, temos de encarar o nosso talento como um instrumento elástico que deveremos puxar tanto quanto possível… As pessoas começam a sentir que estamos a correr riscos por elas.” Isto também se aplica à sua escrita?
Como escritor, não penso na audiência da mesma forma que um artista de variedades. Quando escrevi essa passagem, estava a pensar em verdadeiros artistas, pessoas que enfrentam o público e realizam o seu trabalho perante um grupo de estranhos.
 
Quem são para si os maiores contadores de histórias?
Os homens e mulheres que inventaram os contos de fadas que ainda hoje contamos uns aos outros, os autores de As Mil e Uma Noites, dos contos populares europeus, toda a tradição oral que começou no momento em que o homem aprendeu a falar. São uma fonte inesgotável de inspiração para mim.
 
(Excerto de uma entrevista com Paul Auster, conduzida por Ashton Applewhite e disponível em: http://us.penguingroup.com/static/rguides/us/mr_vertigo.html)


publicado por Miguel Seara às 15:00
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