Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

COMECE A LER "QUEM QUER SER BILIONÁRIO?"

Fui preso. Por ter ganho um concurso de perguntas e respostas. Vieram buscar-me ontem à noite, já tarde, quando até os cães vadios tinham ido dormir. Arrombaram-me a porta, algemaram-me e arrastaram-me até ao jipe que me esperava com uma luz vermelha a acender e a apagar.

 
Não houve rebuliço nem alarido. Não houve um único residente que se desse ao incómodo de abandonar a barraca onde dormia. Apenas o velho mocho pousado na árvore de tamarindo piou quando fui preso.
 
Em Dharavi, as detenções são tão vulgares como os carteiristas nos comboios locais. Não se passa um único dia sem que um desgraçado seja levado até à esquadra da polícia. Alguns têm de ser levados de rastos pelos guardas, aos gritos e aos pontapés. Também há os que vão calmamente. Os que sabem e, se calhar, até estão à espera da chegada da polícia. Para esses, a chegada do jipe com o farol vermelho intermitente chega a ser um alívio.
 
Em retrospectiva, talvez devesse ter berrado e esperneado. Talvez devesse ter protestado a minha inocência, feito um tremendo alarido, galvanizado a vizinhança. Não que servisse de muito. Mesmo que tivesse conseguido acordar alguns moradores, eles não mexeriam um dedo para me defender. Teriam observado o espectáculo com os olhos ramelosos e feito um comentário trivial como «Lá vai mais um», depois bocejavam e voltavam a adormecer rapidamente. A minha partida do maior bairro de lata de toda a Ásia não ia alterar em nada as suas vidas. De manhã, a bicha para a água seria igual, como seria igual o frenesim diário para apanhar a tempo o comboio das sete e meia.
 
Nem sequer se preocupariam em saber qual o motivo da minha detenção. Agora que penso nisso, quando os dois polícias me entraram pela barraca dentro, nem sequer eu o fiz. Quando toda a existência de um tipo é «ilegal», quando se vive no limiar da penúria num baldio urbano onde se disputa cada palmo de espaço e se tem de fazer bicha mesmo para cagar, a prisão contém em si uma certa inevitabilidade. Um tipo fica condicionado a acreditar que um dia vai haver um mandado de captura com o seu nome lá escarrapachado e que acabará por vir um jipe com um farol vermelho intermitente para o levar.
 
Vai haver quem diga que eu estava a pedi-las. Por ter metido o nariz naquele concurso de perguntas e respostas. Vão apontar-me um dedo acusador e lembrar-me o que os mais velhos de Dharavi costumam dizer acerca de nunca se transpor a linha divisória que separa os ricos dos pobres. Ao fim e ao cabo, porque é que um criado sem cheta havia de ir participar num concurso cultural? O cérebro não é um órgão que estejamos autorizados a usar. O que esperam de nós é que usemos unicamente as mãos e as pernas.
 
Continue a ler Quem Quer Ser Bilionário? aqui.


publicado por Miguel Seara às 11:19
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