Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

"QUERO EXPLORAR A GEAOGRAFIA DA CONDIÇÃO HUMANA" – ENTREVISTA DE SIRI HUSTVEDT NO DESTAK

Siri Hustvedt. Por dica do marido, o também escritor Paul Auster, por cá alinhavou parte da trama de Elegia para um Americano, obra suspensa do espírito do seu falecido pai.

 

Não é a sua primeira vez em Lisboa…

Na verdade, por indicação do meu marido [o escritor Paul Auster] que aqui esteve a fazer um filme [A Vida Interior de Martin Frost], acabei por escrever parte deste livro em Lisboa. Ficámos num sítio muito sossegado, nos arredores da cidade. Não atendia telefonemas, só escrevia durante horas e horas, e depois de jantar dava um passeio. Lisboa é um local fantástico para se escrever. Mas normalmente escrevo na nossa casa de família em Brooklyn. É uma casa de quatro pisos e eu trabalho no último andar. Cada um de nós tem um andar. Precisamos de uma casa assim tão grande para os nossos livros que estão espalhados por toda a parte.

 

A mãe do protagonista desta história comenta que uma das coisas que mais sente falta é partilhar as histórias do dia-a-dia com o falecido marido. Quem cumpre esse papel na sua vida?

Eu e o meu marido, ambos cumprimos esse papel mutuamente. Mas esse desabafo da personagem foi um comentário que roubei directamente da minha própria mãe. É muito estranho, mas especialmente durante o primeiro ano da morte do meu pai foi como se esquecêssemos que ele tinha morrido. É uma espécie de processo inconsciente, involuntário. Até mesmo agora, dou por mim a pensar: “devia ligar ao meu pai e perguntar-lhe.” Esse é um fenómeno interessante sobre a morte: o facto de esquecermos que ela aconteceu.

 

Depois de Fantasias de uma Mulher deixou-se render de vez pelos protagonistas masculinos?

Esta é a segunda vez que escrevo numa perspectiva masculina. No livro anterior o protagonista é um homem mais velho. Estou a tentar explorar a geografia da condição humana. Desta vez escolhi um homem mais jovem. E já estou a trabalhar num romance em torno de uma mulher mais velha. Estou sempre a mudar a minha perspectiva. Neste livro o protagonista vive rodeado de mulheres de personalidade forte. Nele os pais são figuras ausentes.

 

E o universo infantil?

Adoro escrever sobre crianças. Parece que há sempre uma criança nos meus livros. Gosto da sua perspectiva diferente das coisas. São simples e complicadas. As crianças e os filósofos tendem a colocar as mesmas questões. É uma perspectiva menos experiente mas também com menos clichés.

 

O protagonista vai conhecendo o pai através dos seus diários. Gostaria que os seus livros ajudassem os seus descendentes a conhecê-la melhor?

Pergunta interessante. Para falar a verdade nunca pensei nisso. Quando conhecemos escritores de quem gostamos, há sempre um vazio entre o escritor e a pessoa, que não são idênticos. Essa ideia de deixar um legado é estranha. A minha filha leu os meus livros mas já em adulta, o que foi apropriado pois não se destinam a crianças. Espero viver para ser avó pois esse é um grande, grande desejo na minha vida. Mas não penso muito em deixar livros para os meus netos. Quando escrevemos, fazemo-lo para alguém que não sabemos definir.

 

No livro narra muitos casos clínicos de psiquiatria. É tudo fruto da sua imaginação?

Os casos foram todos inventados. Mas durante dois anos fui professora voluntária num hospital psiquiátrico e tomei conhecimento de muitos casos. Lidei de perto com doentes mentais. Claro que também fiz muita investigação, falei com especialistas. Além disso trabalho regularmente com um grupo de neuropsicanálise.

 

Nova Iorque é uma cidade neurótica?

Essa é uma boa questão: se Nova Iorque é mais neurótica que outras cidades. Não, não creio. Penso que a neurose está em todo o lado.

 

No novo livro a solidão é quase uma personagem. Crê que o 11 de Setembro aproximou as pessoas ou agravou essa sensação de solidão?

O 11 de Setembro foi algo muito especial, sobretudo para os nova-iorquinos que o viveram de tão perto, mas não creio que seja um marco na história da Humanidade. Afectou-nos porque foi-nos muito próximo. Interessante foi a consequente torrente de bondade. Foi algo extraordinário ainda que efémero. As pessoas metiam mais conversa entre si, partilhando o luto. Não há dúvidas que foram tempos extraordinários na história de Nova Iorque. E todos os que lá estiveram recordarão esses tempos para sempre.

 

Acredita nesta nova era Obama?

Sim, acredito! Rejubilei, chorei como um bebé, quando ele foi eleito. E ainda não desci à terra. Sabia que não tinha votado num radical. O Obama é um reformador. Ele tem correspondido às minhas expectativas.

 

Entevista de Vera Valadas Ferreira com Siri Hustvedt, no Destak, no dia 18 de Junho.


publicado por Miguel Seara às 10:05
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