Terça-feira, 27 de Outubro de 2009

PRIMEIRAS PÁGINAS DE INVISÍVEL

 

 

Apertei-lhe a mão pela primeira vez na Primavera de 1967. Por essa altura, estava no segundo ano do meu curso na Columbia University e não passava de um rapaz ignorante que, para além de ter um apetite por livros, acreditava ou alimentava a ilusão de que, um dia, os seus escritos possuiriam qualidade suficiente para que pudesse intitular-se poeta, e, como lia poesia, tivera já oportunidade de conhecer o homónimo do indivíduo a quem acabava de apertar a mão, um homem que se arrastava ao longo dos últimos versos do vigésimo oitavo canto do Inferno. Bertran de Born, o poeta provençal do século XII, que leva numa mão a sua cabeça decepada, pegando nela pelos cabelos, e a faz balouçar como se fora uma lanterna – seguramente uma das imagens mais grotescas nesse catálogo de alucinações e tormentos em forma de livro. Dante era um acérrimo defensor da obra de Bertran de Born, mas condenou-o à danação eterna porque ele tinha aconselhado o príncipe Henrique a revoltar-se contra o seu pai, o rei Henrique II, e como de Born fomentou a separação entre pai e filho e os converteu em inimigos, o engenhoso castigo de Dante consistiu em separar o poeta de si mesmo. Daí o corpo decapitado que chora a sua sorte enquanto caminha pelas regiões infernais e que pergunta ao viajante florentino se haverá algum sofrimento mais terrível do que o seu.

 

Quando ele se apresentou como Rudolf Born, é óbvio que pensei imediatamente no poeta. Alguma relação com Bertran?, perguntei.

Ah, retorquiu ele, essa infeliz criatura decapitada. Talvez, mas não me parece provável. Falta-me o de. É preciso ser-se nobre para se ter o de, e a triste verdade é que eu serei tudo menos nobre.

 

Não me lembro minimamente das razões que me terão levado àquele local. Imagino que algum amigo me terá pedido que o acompanhasse, mas não faço a menor ideia de quem poderá ter sido: há muito que tal pormenor se evaporou da minha mente. Nem sequer consigo lembrar-me do sítio onde decorria a festa – no centro ou numa zona residencial, mais para norte ou mais para sul, num apartamento ou num loft. Aliás, para começar, nem sequer faço ideia das razões que me terão levado a aceitar tal convite, tanto mais que, na altura, tinha tendência a evitar todo o tipo de reuniões mais concorridas: o alarido palrador das multidões não me atraía rigorosamente nada, e a timidez que me assaltava na presença de pessoas desconhecidas deixava-me constrangido. Porém, naquela noite, inexplicavelmente, respondi que sim, de modo que lá fui eu com o meu amigo esquecido para o sítio, fosse ele qual fosse, para onde me quis levar.

 

Podem ler as primeiras páginas de Invisível, de Paul Auster, no Diário Digital, aqui.

 


publicado por Miguel Seara às 11:28
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