Terça-feira, 10 de Novembro de 2009

"O SENTIDO DA VIDA" – A CRÍTICA DA LER A INVISÍVEL

 

 

 

Paul Auster retoma a pulsação perdida nos dois últimos romances.

 

Adam Walker está prestes a morrer, mas antes tem de acertar contas com o passado. A tarefa não é fácil. Quarenta anos antes, quando aos vinte era um jovem estudante de Literatura na Columbia University, em Nova Iorque, conhecera o par que o havia de empurrar para a espantosa aventura que é conhecer-se enquanto ser humano. Ele era um francês arrogante e misterioso; ela, a amante caprichosa e instável. Os dois atraem Walker, o jovem aspirante a poeta, para um passeio perigoso que havia de o conduzir ao abismo da alma e a escolhas dolorosas. O novo romance de Paul Auster (n. 1947) retoma a pulsação e o alcance perdidos nos dois últimos livros, e apresenta-se como uma das suas obras mais perturbadoras.

 

A narrativa, dividida em quatro partes, relata uma vida, reconstituindo-a a partir da memória descritiva que dela faz o próprio Walker, o seu amigo James Freeman, escritor consagrado, e uma francesa, Cécile Juin, acompanhando as quatro estações. A descida ao Inferno ou a viagem ao coração das trevas não andam muito longe destas páginas, onde a reflexão sobre a escrita e a natureza da ficção vão a par do questionamento sobre a essência da identidade e o destino pessoal. Nenhum destes personagens é ele próprio, antes avatares de outros seres humanos em busca de um sentido perdido, ou nunca vislumbrado, da vida que, todos eles, cada um a seu modo, pensou, imaginou ou desejou ter vivido.

 

A eminência parda que lança os dados é esquiva, brutal e fascinada pela violência, à maneira do seu homónimo, o poeta provençal, Bertran de Born. Dúplice, como qualquer implacável agente secreto, mexe os cordelinhos, pouco se importando com as consequências que a todos afectam. Não há moral, nem tão-pouco ética, antes um jogo perverso de manipulação, que acaba sempre em morte e sofrimento. E memórias, incapazes de repor as coisas no seu devido lugar, vibrando na almejada, e nunca alcançada, harmonia.

 

Neste livro, quase hipnótico, como a música dos trabalhadores que ecoa nas derradeiras páginas, o “eu”, o “tu” e o “ele” convergem para dar corpo à educação do que é um ser humano capaz de se opor, por vezes nem sempre com uma coragem límpida e imediata, ao infra-humano, a tudo aquilo que não é claro, amável, compassivo, ou seja, à injustiça inerente a um estado de coisas inferiores. E é ao desfiar da teia, refazendo outra que faça sentido, que Freeman, o escritor e testamentário do homem obscuro e invisível, se apercebe, tal como dizia Walker, que “ há mais poesia no mundo do que justiça”.

 

Crítica de José Guardado Moreira, a Invisível, de Paul Auster, publicada na edição de Novembro da Ler.


publicado por Miguel Seara às 11:25
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