Quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

"O TERRITÓRIO DAS ILUSÕES" – A CRÍTICA DO I

 

 

O novo livro de Paul Auster situa-se entre os dilemas interiores e as movimentações da história das últimas quatro décadas

 

As criações literárias de Paul Auster estão imersas daquela maneira laboriosa que alguns dos melhores romancistas usam para contar histórias, mesmo as mais banais. Conseguem um raro equilíbrio entre a força do enredo e as soluções narrativas que o servem. Tal como a personagem de Obélix, encarnação da energia em estado puro, a escrita de Auster caiu no caldeirão do mago. Provavelmente até já nasceu lá, nesse território longínquo essencial onde o escritor se move com um felino andar de prestidigitador e onde muito do que parece não é.

 

Invisível, o novo romance, comprova-o uma vez mais. A história, que atravessa quatro décadas até ao presente, desdobra-se por vários narradores e é contada através de cartas, de diários, de telefonemas, de flashbacks ou simplesmente pelo relato directo. Desta colagem resulta o entendimento possível do todo, numa engenhosa replicação daquilo que geralmente acontece na realidade, sempre assustadoramente mais vasta do que é possível abraçar.

 

Invisível começa em 1967, em Nova Iorque, quando Adam Walker, um estudante de Literatura de 20 anos, conhece o estranho e futuramente sinistro Rudolf Born e a respectiva namorada, a sedutora Margot. O casal francês está nos Estados Unidos porque Born foi dar aulas para a mesma universidade. Rapidamente, a relação aprofunda-se até que um acontecimento dramático lhe põe um ponto final nessa Primavera, alterando para sempre a vida de Walker.

 

O livro está dividido em partes. A primeira trata dos acontecimentos acima descritos. A segunda põe Jim em cena, um conhecido dessa época da universidade que se tornou um escritor famoso. A acção desliza para o presente, com Jim a actuar como o cimento de coesão da história. A partir daí há uma sucessão de desdobramentos, que aguçam o mistério e funcionam como uma ilustração irónica da complexidade dos processos de criação literária.

 

Adam Walker é a típica personagem austeriana. Sob a aparência de jovem bem integrado e, neste caso concreto, magnificamente apetrechado para a vida em sociedade, está rodeado de um corpo consistente de dúvidas e dor. Em Paul Auster a linha que separa a sanidade da loucura é muito ténue. Há um permanente questionamento dos limites do ser e das percepções. As personagens estão a braços com os seus pensamentos e limitada perspectiva da realidade e a solidão não é um estado de espírito mas sim a verificação de uma evidência ontológica e inseparável. Acrescentem-se a este elenco as ideias de envelhecimento e de morte presentes no livro e o quadro fica completo.

 

No entanto, Invisível não se detém apenas na interioridade dos seus actores. É uma obra que deixa sopros de algumas das movimentações da história das últimas quatro décadas e nesse sentido Walker e companhia são filhos legítimos dos tempos que lhes coube viver. Iniciada em 1967, a narrativa fala das transformações em curso nas sociedades ocidentais: os fantasmas da Guerra do Vietname (no caso dos EUA), a libertação sexual, a contestação dos jovens, o Maio de 1968 francês e, talvez um dos temas mais importantes, a divisão racial e os preconceitos que até à actualidade subsistem, provando que há barreiras mentais que domaram a cair.

 

Crítica da autoria de Alexandra Macedo a Invisível, de Paul Auster, publicada no sábado, no i.

 


publicado por Miguel Seara às 15:10
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