Paul Auster retoma a pulsação perdida nos dois últimos romances.
Adam Walker está prestes a morrer, mas antes tem de acertar contas com o passado. A tarefa não é fácil. Quarenta anos antes, quando aos vinte era um jovem estudante de Literatura na Columbia University,
A narrativa, dividida em quatro partes, relata uma vida, reconstituindo-a a partir da memória descritiva que dela faz o próprio Walker, o seu amigo James Freeman, escritor consagrado, e uma francesa, Cécile Juin, acompanhando as quatro estações. A descida ao Inferno ou a viagem ao coração das trevas não andam muito longe destas páginas, onde a reflexão sobre a escrita e a natureza da ficção vão a par do questionamento sobre a essência da identidade e o destino pessoal. Nenhum destes personagens é ele próprio, antes avatares de outros seres humanos em busca de um sentido perdido, ou nunca vislumbrado, da vida que, todos eles, cada um a seu modo, pensou, imaginou ou desejou ter vivido.
A eminência parda que lança os dados é esquiva, brutal e fascinada pela violência, à maneira do seu homónimo, o poeta provençal, Bertran de Born. Dúplice, como qualquer implacável agente secreto, mexe os cordelinhos, pouco se importando com as consequências que a todos afectam. Não há moral, nem tão-pouco ética, antes um jogo perverso de manipulação, que acaba sempre em morte e sofrimento. E memórias, incapazes de repor as coisas no seu devido lugar, vibrando na almejada, e nunca alcançada, harmonia.
Neste livro, quase hipnótico, como a música dos trabalhadores que ecoa nas derradeiras páginas, o “eu”, o “tu” e o “ele” convergem para dar corpo à educação do que é um ser humano capaz de se opor, por vezes nem sempre com uma coragem límpida e imediata, ao infra-humano, a tudo aquilo que não é claro, amável, compassivo, ou seja, à injustiça inerente a um estado de coisas inferiores. E é ao desfiar da teia, refazendo outra que faça sentido, que Freeman, o escritor e testamentário do homem obscuro e invisível, se apercebe, tal como dizia Walker, que “ há mais poesia no mundo do que justiça”.
Crítica de José Guardado Moreira, a Invisível, de Paul Auster, publicada na edição de Novembro da Ler.